Que horas são? Ora, ainda faltam trinta e cinco minutos de insônia para as quatro horas que EU não dormi nesta madrugada dura como um abstrato travesseiro de concreto porque estava ansioso, pois ontem à tarde só ganhei vinte e cinco por cento dos cem que esperava. Faltam poucas horas para o amanhecer e mais de vinte e quatro para o amanhã ser outro dia igual a este que se seguirá a outro e mais outro e mais outro para EU continuar esperando obter mais lucro, maior comodidade mais vantagens... Faltam sete horas para EU perguntar ao vento se EU posso ou não fazer alguma coisa ante o pedido (mudo) de socorro daquele companheiro vitimado pela injustiça. Faltam quarenta e cinco minutos para EU conferir ao telefone se aquele dinheiro foi depositado na minha conta bancária, como me prometeu fazer, sem falta, o colega endividado. Que horas são? Ora, são horas de vencer! Mas são também horas de despertar as imagens oníricas coaguladas em cochilos de sono líquido e intermitente, à espera de um tempo onde será abolido tudo o que emergirá da vigília como realidade plena, e o que a realidade plena esconderá nas dobras sinuosas da vigília; são horas de separar, com precisão, centímetros de esperanças de côvados de quimeras; de ignorar se estou acordado ou sonhando, porque haverá uma noite de nada onde ignorarei as tardes de tudo; são horas de indagar a mim próprio se as rotinas e as obsessões do cotidiano pertencem mais ao ritmo da vida, ou se é a vida que pertence ao ritmo do dia-a-dia, pois do contrário nunca saberei se foi ela quem me viveu ou fui eu que a vivi; se possuo, de fato, aquele saldo que está na minha conta-corrente, ou se é ele quem me possui, pois é sabido que o dinheiro é excelente escravo, mas péssimo senhor; são horas de sentar nos bancos dos jardins das praças públicas e conversar com outros homens e mulheres sobre os projetos para o futuro, enquanto não chega o dia de conversar sozinho sobre um passado perdido, sentado sobre um presente de pedra; são horas de sentir piedade dos miseráveis, de me indignar com a injustiça praticada contra outrem, cuidar de preveni-la e, uma vez concretizada, lutar para derrotá-la, menos para receber incensos, aplausos, louvações, mas para que quando também estiver avassalado no Reino da Iniqüidade, possa ter a coragem de suplicar que alguém interceda por mim; são horas de me rejubilar com a vitória alheia, alardeá-la, valorizá-la, engrandecê-la... ainda que se trate da vitória de um competidor, e principalmente se for meritória e pouco reconhecida; são horas de não me regozijar com a derrota do outro, mesmo que seja meu inimigo; de não me deixar fanatizar por ídolos de barro, alardeadores de falsos valores, proclamadores da própria sabedoria, fazedores de ignorantes e de analfabetos funcionais, donos improváveis de verdades sem provas, ou com provas apenas em feitio de palavras; são horas de dispensar um pouco mais de atenção aos fantasmas que me visitam durante as madrugadas transfundindo lembranças, transplantando saudades, ou até mesmo mergulhando o meu cansaço em banheiras intangíveis repletas de sangue, suores e lágrimas; são também horas de me levantar mais cedo a fim de assistir aos primeiros clarões do arrebol de um novo dia, nascendo junto com o Sol nascente. São horas, enfim, de correr em busca das horas perdidas e de jurar que não perderei jamais as horas ainda por virem...









Leia este blog no seu celular