Escrevinhações & Escreveduras


20/12/2006


Que horas são?

Que horas são? Ora, ainda faltam trinta e cinco minutos de insônia para as quatro horas que EU não dormi nesta madrugada dura como um abstrato travesseiro de concreto porque estava ansioso, pois ontem à tarde só ganhei vinte e cinco por cento dos cem que esperava. Faltam poucas horas para o amanhecer e mais de vinte e quatro para o amanhã ser outro dia igual a este que se seguirá a outro e mais outro e mais outro para EU continuar esperando obter mais lucro, maior comodidade mais vantagens... Faltam sete horas para EU perguntar ao vento se EU posso ou não fazer alguma coisa ante o pedido (mudo) de socorro daquele companheiro vitimado pela injustiça. Faltam quarenta e cinco minutos para EU conferir ao telefone se aquele dinheiro foi depositado na minha conta bancária, como me prometeu fazer, sem falta, o colega endividado. Que horas são? Ora, são horas de vencer! Mas são também horas de despertar as imagens oníricas coaguladas em cochilos de sono líquido e intermitente, à espera de um tempo onde será abolido tudo o que emergirá da vigília como realidade plena, e o que a realidade plena esconderá nas dobras sinuosas da vigília; são horas de separar, com precisão, centímetros de esperanças de côvados de quimeras; de ignorar se estou acordado ou sonhando, porque haverá uma noite de nada onde ignorarei as tardes de tudo; são horas de indagar a mim próprio se as rotinas e as obsessões do cotidiano pertencem mais ao ritmo da vida, ou se é a vida que pertence ao ritmo do dia-a-dia, pois do contrário nunca saberei se foi ela quem me viveu ou fui eu que a vivi; se possuo, de fato, aquele saldo que está na minha conta-corrente, ou se é ele quem me possui, pois é sabido que o dinheiro é excelente escravo, mas péssimo senhor; são horas de sentar nos bancos dos jardins das praças públicas e conversar com outros homens e mulheres sobre os projetos para o futuro, enquanto não chega o dia de conversar sozinho sobre um passado perdido, sentado sobre um presente de pedra; são horas de sentir piedade dos miseráveis, de me indignar com a injustiça praticada contra outrem, cuidar de preveni-la e, uma vez concretizada, lutar para derrotá-la,  menos para receber incensos, aplausos, louvações, mas para que quando também estiver avassalado no Reino da Iniqüidade, possa ter a coragem de suplicar que alguém interceda por mim; são horas de me rejubilar com a vitória alheia, alardeá-la, valorizá-la, engrandecê-la...  ainda que se trate da vitória de um competidor, e principalmente se for meritória e pouco reconhecida; são horas de não me regozijar com a derrota do outro, mesmo que seja meu inimigo; de não me deixar fanatizar por ídolos de barro, alardeadores de falsos valores, proclamadores da própria sabedoria, fazedores de ignorantes e de analfabetos funcionais, donos improváveis de verdades sem provas, ou com provas apenas em feitio de palavras; são horas de dispensar um pouco mais de atenção aos fantasmas que me visitam durante as madrugadas transfundindo lembranças, transplantando saudades, ou até mesmo mergulhando o meu cansaço em banheiras intangíveis  repletas de sangue, suores e lágrimas; são também horas de me levantar mais cedo a fim de assistir aos primeiros clarões do arrebol de um novo dia, nascendo junto com o Sol nascente. São horas, enfim, de correr em busca das horas perdidas e de jurar que não perderei jamais as horas ainda por virem...

 

Escrito por Ray Silveira às 22h13
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30/11/2006


 

Raios de Vida

 
Elane Tomich


Raios me quebram na erosão do monte
me ralo e caio no clarão do raio 
trovão confundo com o romper de fontes 
 me sonho em manto de flores de maio.

Vôo canção por sobre os horizontes
razão desmaio ponto em que me esvaio
de antemão saio em busca de pontes
na direção dos teus passos de ensaio. 

 

Menino ao mundo começando a  olhar 
conta um rosário nas contas do riso 
desmancha a vida esta euforia leve

tal qual infância a querer voar 
pro outro lado morte e paraíso 
 lacrados olhos sobre luz tão breve. 

 

 

Escrito por Ray Silveira às 11h09
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26/07/2006


É PARA CHOCAR MESMO!

 

Escrito por Ray Silveira às 10h45
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18/06/2006


A Última Vez Que Viu Paris

Ray Silveira

“Alors l'obsession qui me hantait depuis un mois pénétra de nouveau dans ma tête. Dès que je demeurais immobile, elle descendait sur moi, entrait en moi et me rongeait. Elle me rongeait comme rongent les idées fixes, comme les cancers doivent ronger les chairs”. (Guy de Maupassant: La Confession)

Insoniava e não comia havia mais de uma semana. Não se banhava nem se barbeava desde nunca mais. Desusava eletricidade por dois motivos: ter-se esquecido dela e não existir mesmo. Deitado de costas, mirava o teto com olhos de já era. Baratas e ratazanas passeavam sobre o corpo. A mente, contudo, estava mais viva do que jamais. Embora, mais confusa que o universo. De vez em muito interrompia o que não fazia para se masturbar. Ora ejaculava sobre as vísceras de um cadáver de mulher em decomposição. Ora sendo alvejado no ventre pela arma em punho de uma prostituta despida. As parceiras fictícias mais freqüentes eram a mãe e as duas irmãs. Eventualmente, se levantava para verter ou descomer. Na maioria das vezes despejava no próprio leito. Durava sozinho numa água furtada, à Rue Dunkerque, em Montmartre, cujo aluguel não pagava havia meses, pois carecia de fundos, ânimo, interesse e perspectiva de conseqüências. No domingo pela manhã desceu ao rés do chão portando um volumoso saco plástico e deixou o prédio, rumo à Gare du Nord. Apanhou o metrô. Desceu em Barbès Rochecouart e fez conexão para La Chapelle. Apeou. Subiu a escadaria do Sacré Coeur e entrou na Basílica quando o coro entoava o Cântico da Comunhão.

Le pain du ciel nous est donné / C'est Lá le banquet véritable / L'agneau pour nous s'est immole / Et Dieu nous invite a Sa table!

Sem largar o pacote, enfileirou-se entre os fiéis e comungou, não afetando nem dissimulando piedade. Deixou a Basílica antes de acabar a missa, pela mesma porta por onde entrou. Parou no meio da escadaria, abriu a braguilha e desentalou peça rija, carnosa, e macrocefálica. Vestiu uma camisa-de-vênus e se onanizou para quem quisesse olhar, aconchegando o misterioso saco plástico contra o peito, com a outra mão. Depois, retirou o preservativo e preservou o conteúdo cingindo com uma laçada. Pôs no bolso direito da calça.  Enquanto se recompunha, o coro entoava a aclamação eucarística:

Dieu caché, je Vous adore en Ce sacrement! / Je ne vois qu'un peu de pain, mais je crois pourtant: / Qui pourrait douter de Vous, maitre souverain, / Quand Ce corps nous fut livre de Vos propres mains?

Desceu os demais degraus com desenvoltura de desocupado e flanando como um turista. Retomou o metrô em La Chapelle e seguiu para o Père Lachaise. O cemitério estava apinhado: multidões de mortos vividos fingiam homenagear legiões de mortos morridos. Na entrada apanhou um mapa. Orientou-se e continuou a caminhar, até o túmulo de Edith Piaf. Sentou-se. Retirou um minúsculo walkman do bolso traseiro, colocou os headphones e acionou a tecla play. As notas de La Vie en Rose ecoaram em seus ouvidos a todo volume. Pegou o preservativo e rasgou bruscamente, derramando o sêmen sobre o jazigo da cantora. Quando a música terminou, levantou-se e saiu serenamente, como se houvera acabado de fazer uma prece pela alma da artista. Tornou à estação do metrô e embarcou na linha Galliéni / Pont de Levallois, rumando para o terminal de Bécon. Desceu em St-Lazare. A estação enxameava. Parecia mais parisiense do que o Sena.

Ignorando a perplexidade dos circunstantes, atravessou a gare e saiu pelo portão que dá acesso à rue de Rome, por onde seguiu, após dobrar à esquerda. Choutou, alcançou a rue St-Lazare e através dela, o Bouleverd Haussmann. No cruzamento com St-Augustin, virou novamente à esquerda e continuou até o Bd Malesherbes através do qual, após cerca de três quartos de hora de caminhada, chegou à Place de la Concorde.

Depois de atravessar perigosamente um fluxo caótico de veículos, pôs-se ao pé do obelisco e urinou num recipiente de vidro, utilizando parcialmente a fonte luminosa como tapume. Com a urina, batizou a estátua-símbolo da cidade de Lille, quase em frente à porta de acesso aos Esgotos. A seguir, Champs-Elysées acima. Nada o detinha, nem intimidava. Negava vulto ou era indiferente a quaisquer percalços da trajetória. Reagia à quentura do perigo com pensamentos gelados. Uma viatura da polícia vinha de encontro. O pisca-pisca de alerta e o letreiro do Lidô, tinham o mesmo significado. Um débil gemido de França vinha lá de dentro do cabaré. Arribou na Etoile quando já era meia-noite. O enigmático saco plástico foi depositado junto à pira perpétua do Soldado Desconhecido. Desceu ao subterrâneo embarcando em direção a Nation. Desceu na estação de Bir Hakeim. Subiu para a Avenue de Suffren e se dirigiu para a Torre Eiffel. Entrou no elevador e saiu no segundo estágio. Aproximando-se da amurada de proteção, nem sequer reparou no espetáculo de luzes diante de si. Elevou-se se sustendo nos próprios braços. Sentou de costas para a cidade e se deixou cair no vazio.

 

Escrito por Ray Silveira às 18h59
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14/05/2006


"Um Homem Sem Tempo" (Continuação)

Tenho algumas vantagens. Enquanto competem desesperadamente entre si por algum lugar de destaque, eu não preciso competir. A perenidade me é favorável, neste aspecto. Pois quem é eterno não se preocupa com o amanhã. Simplesmente porque o amanhã inexiste. Como inexistiu o ontem. E não sentes tédio? Talvez, mas o que representa o tédio diante do sofrimento dos outros homens vendo o tempo escoar com uma irreversibilidade implacável? Qual a importância do tédio quando lhes assisto, desesperados, tentando inutilmente, senão vencê-lo, pelo menos acompanhá-lo? Nada mais ridículo. E uma crueldade mórbida me diverte quando assisto a essa correria. Há tanto prazer em deleitar-me durante uma manhã com esse burlesco Grand prix, que compensa permanecer um dia inteiro sentindo tédio. Aliás, quase nunca o sinto: basta fomentar em mim próprio o desejo de apreciar este espetáculo. Certamente, cuida, não sem um pouco de razão, que sou impiedoso. Veja a outra face da moeda. Em verdade, poucos prefeririam estar no meu lugar. Vocês possuem, em maior ou menor grau, três virtudes. Então, de certo modo, são felizes. A maioria tem Fé. Eu sequer a imagino. Se experimentar a fé for acreditar em algo transcendental, não tenho nem posso ter. Não há azo nem acaso. Todos têm esperança, salvo em situações excepcionais, como numa doença grave do humor. Jamais experimento tal sensação. Um quando, para vocês, significa vida. Para mim, um quando não passa de um advérbio tão banal quanto um como. Caridade é um palavrão. Quem a pratica geralmente o faz para aplacar a dor da consciência. Eu não preciso aplacar nada. Simplesmente ignoro a palavra remorso. Então, é impossível sentir a paz que vocês sentem quando a praticam ou fingem praticá-la.

 

Meu amigo e eu ficamos pensativos. Meditando sobre as suas últimas palavras, daria tudo para saber o que ele meditava. Enquanto isso, a chuva chapinhava sobre a chapa cheia d’água do ralo do jardim. Você sofre? Veja. O maior castigo de existir é a consciência da morte. Deste mal eu não sofro, pois ignoro se vou morrer. Depois deste sentimento, a dor maior é o anseio das coisas e das causas inexoráveis. A nostalgia do que jamais existiu. O desejo de que tudo tivesse sido diferente e melhor. A saudade de não ter sido o que não se foi. Sob este aspecto, também não sofro, pois não tenho passado. Mas seria leviandade declarar que não me atormento. Como todas as pessoas, estou sujeito a dores físicas e emocionais. Não preciso competir, mas sinto necessidade de me auto-afirmar; de ter auto-estima. Ou não seria humano. Como nem sempre isso é possível, tenho frustrações. Logo, também sofro.  O que é a Primavera? Um lugar. Um caminho arborizado e orlado de flores, por onde viajo e, às vezes, me detenho. Para depois continuar por outros menos floridos, mais chuvosos, ou menos úmidos. Então, as estações do ano de vocês, para mim são estações ferroviárias. O que para os outros é tempo, para mim é espaço.

 

Já estava quase “hojecendo”. Como ainda chovia, cuidei que não percebera. O parto do sol seria mais demorado. Aproveitei. O que mais incomoda um homem sem tempo? Não comemorar aniversários, logo, não receber presentes. Não saber o significado das palavras reveillon, século, calendário, agenda, nem da frase feliz ano novo. Não ter direito de passar na frente numa fila. Não se aposentar. E o que mais dá prazer, descontando presenciar o espetáculo da competição alheia e não temer a morte? Não ter de esperar o fim do mês para receber salário, nem o fim-de-semana para ir à praia ou ao cinema. Ignorar o que significam as expressões “ficar velho” e “bug do milênio”. Não ser preciso fazer a barba, não cortar o cabelo, nem aparar as unhas...

 

Escrito por Ray Silveira às 20h29
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08/05/2006


Carta aberta e coração ferido

 

Natércia Pontes

 

Sim, você foi incapaz de me amar. Incapaz de sequer tirar suas roupas - não falo simplesmente em tirar a camisa e meter-se descalço na cama, você sabe. Lembro, como se fosse hoje, a braguilha aberta, o sutiã suspenso no ar, meus olhos revirados ao avesso, o meu corpo inteiro e tão nu, tão simples como um recém-nascido, tremendo, tremendo, as pernas retesadas de frio, de medo. A braguilha aberta e o que quer que fosse metido lá dentro, como manda o figurino, como fazem os bichos, como Deus quer. Você sabe muito bem o que Deus quer. Você sabe, não se faça de rogado, perdido, desentendido, você sabe...sabe?

Eu sei que assusta, o amor. Eu também não sei do que se trata, admito. Eu não tenho a menor idéia do que ele seja, eu também não consigo ver, nem sequer imaginar. O amor me dá tanto medo. Eu fui cruel em te pedir um mundo inteiro e desconhecido. Eu fui cruel, eu fui tão cruel, sim, eu fui tão cruel. Custa admitir, assim em público, custa admitir, mas eu te exigi algo que temia e também não sabia: Como fazem os bichos? O quê afinal Deus quer tanto da gente, meu amor?

No dia em que te perdi de vista, o clima estava abafado e eu caminhava por ali; ia ao correio, à lavanderia, ao mercado, comprar fruta e verdura, já que a minha dieta ia de mal a pior; salvo a cerveja, vez por outra (olhando em teus olhos e segurando tuas mãos), eu só comia pão e manteiga e arroz e frango e andava engordando, eu sabia, andava engordando e sempre que me olhava no espelho, eu via que minhas carnes ficavam cada dia mais moles, tenras e macias para você, só para você, meu amor.

Eu fui um frango abatido e meu jazigo era o teu freezer - Frango abatido, frango abatido, é tão bonita essa imagem, eu fui um frango abatido, meu amor... Não sei como explicar, não sei como dizer, mas num dado momento eu percebi, eu percebi tudo, é incrível, eu percebi tudo, eu percebi que há muito tempo eu vivia ou simplesmente morria num lugar frio, escuro e feio, tão frio, escuro e feio, meu amor.

Eu decidi, eu decidi mudar, de uma vez por todas mudar, mudar meu endereço, meu rosto, emplumar meu corpo, enfunar as velas, te dizer adeus. Não havia porque estar ali, embalsamada em gelo, ridícula como um frango despenado, vedada em plástico, sem poder falar o quanto meu coraçãozinho batia devagar, mas batia, decerto que batia, eu estava por ali, sempre por ali, tão viva e perdida como você, como todos os bichos do mundo ou mesmo como Deus.

E desta feita, naquele dia abafado, as cores fortes da rua cintilaram diante dos meus olhos, as cores brilhantes do céu, da fachada amarela do correio, da pele das verduras, do corpo das frutas, do meu vestido vermelho, dos carros correndo pelo asfalto, como uma manada enfurecida de bisões coloridos ao meu favor.

Ainda hoje, admito, não sei dizer o que é o amor. Também não sei explicar, de fato, como tudo aconteceu, quando, por algum motivo divino, você sumiu, desapareceu, sumiu, sumiu, você simplesmente sumiu daqui, meu amor.

Escrito por Ray Silveira às 22h51
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Fevereiro, seis e dezoito da manhã, a setenta e nove quilômetros por hora

Natércia Pontes

 

Eu sabia, eu sabia, desde a primeira vez que entrei na tua casa, desci a escada e senti o cheiro do mofo tomando as paredes e os amontoados de caixas espalhadas pelo chão daquele lugar subterrâneo, empoeirado e frio, uma espécie de garagem que fazia as vias de um estúdio de som. Desde a primeira vez, eu sabia, quando meti meus pés pelas minhas mãos no assoalho úmido e frio da tua casa, garagem ou estúdio, desde a primeira vez, te digo, quando o mofo assomado pelas paredes serpenteava em veias verdes ou cinzas e as caixas velhas, abertas postavam-se empilhadas ali pelo chão, no assoalho frio, musgo, musgo, musgo, caminho pantanoso, desde a primeira vez, eu sabia e te digo, sabia que não era meu, o teu coração.

E por que entrei ali e meti meus pés pintados de vermelho na lama, me diga, por que meti meus pés pintados de vermelho na lama, naquela lama borbulhante, obscura e fria? Por que entrei ali de mãos dadas às tuas, na calada da noite, depois de uma cerveja ou outra, um afago no rosto, um beijo na boca, não sei, não sei, minhas mãos dadas às tuas, sempre dadas às tuas, meus pés, pelas minhas mãos, mãos, mãos, mas por que entrei ali, se sabia, eu sabia, me diga, ai como eu sabia, sabia que jamais, caminho pantanoso, verde ou cinza, sabia que jamais chegaríamos a lugar algum?

Mesmo naquela manhã de fevereiro, a setenta e nove quilômetros por hora, depois de uma cerveja ou outra, um beijo na boca, um afago no rosto, quando dirigia, bêbada, serpenteando acima do limite permitido, rindo, rindo, meus dentes separados, o dia nascendo, teus cabelos claros brilhando contra o sol, mesmo naquele dia, eu sabia que jamais, jamais, meus pés, minhas mãos dadas às tuas, sabia com o coração, sol, sol, sol e assoalho frio, te digo, eu simplesmente sabia.

Claro que havia algo de novo no céu, em mim também, uma espécie de mistério, o ano começando, os teus olhos claros, fogo, fogo, fogo, sobre minhas coxas abertas no banco do carro, o disco do Arnaldo Baptista e a tua fixação em meus dentes separados, bolhas, bolhas, beijos na boca, bolhas, bolhinhas, bolhas, boca obscura, me diga, será que eu vou virar bolor?

Não sei como, eu sei, eu sabia, te disse, mas uma arranhadura no disco, à revelia de uma dança macabra, da vida mesmo, uma arranhadura trincou o sol, escureceu o céu e fez tudo virar pântano. Eu simplesmente descia a escada e sabia, meus pés pintados de vermelho, verde ou cinza, enfiados na lama, minhas mãos dadas às tuas, um amontoado de beijos empilhados e espalhados ali pelo céu, bolor. Não sei bem como, lama, lama, o amor não veio e acabamos não chegando, eu sabia, desde a primeira vez, te digo, desde a primeira vez eu sabia, e acabamos não chegando a lugar algum.

Escrito por Ray Silveira às 22h40
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19/03/2006


"IRMÃ CIBELE E A MENINA"

                                         

Moreira Campos                                                               

 

              Quando a mãe dos meninos morreu, Dona Madalena que é espírita e mulher de muito prestígio (à tarde, toma o automóvel do marido, dirigido pelo motorista, e sai em visita aos seus pobres e doentes), recolheu as crianças e as distribuiu como pôde. Falou com Irmã Cola para ficar com a menina, que, por sinal, não é tão menina: tem as pernas bem-feitas e os cabelos bonitos, elogiados pela empregada da casa, ainda na hora em que ela saía:

  - São lindos os cabelos dela!

               Dona Madalena chegou ao colégio na hora em que as freiras merendavam na mesa grande da área de travejamento forte. Irmã Cola se levantou, outras freiras se levantaram. Dona Madalena recusou a fatia de bolo. Queria apenas a xícara de café com pouco açúcar, que ela indicava com os dois dedos. Os pombos desciam de pombal e vinham arrulhar no parapeito da área. Irmã Cibele, a recente, atirava-lhes miolo de pão, que antes arredondava muito entre os dedos. O pavilhão das órfãs, para onde ia a menina, fica no fundo do longo corredor, que se projeta sob a sucessão de arcadas e tem como piso lajes antigas comidas por muitos passos. O pavimento repousava escuro e tranqüilo, que era domingo: as máquinas de costura fechadas, as cadeiras vazias, as peças de linho arranjadas sobre a mesa. Apenas algumas órfãs se aproximaram interessadas pela novidade da companheira. Examinavam-na. Ela olhava o forro, voltava a descansar na outra perna e insistia em estalar os dedos, para o que Irmã Cola chamou a atenção. A maleta de tábua da menina, comprada no mercado por Dona Madalena, foi mais uma vez colocada a um canto no largo dormitório. Dona Madalena sentiu necessidade de reforçar os conselhos. Ela ia ser feliz, e útil. Aprender um ofício. Agora falava mais para Irmã Cola:

- Croché, que tanto serve para encher a vida da gente.

Irmã Cola ria e confirmava. Pousou a mão sobre os cabelos compridos da menina:

- Ela vai se dar bem.

                 A menina quis marejar os olhos, e mordeu o lábio.

                 Quem se empolgou também com os cabelos da menina foi Irmã Cibele, que é recente e atira miolo de pão para os pombos. Alisa-os com as próprias mãos, enquanto a menina se aplica no bastidor, o que é inusitado. As outras surpresas uma delas de boca aberta, a agulha suspensa no ar. Irmã Cibele teve a idéia do laço de fita, para compor o rabo-de-cavalo que apreciou recuando.

- Fica lindo!

- Cavilação...

                   Quem falou assim, de passagem, foi Irmã Teresa. Irmã Cibele pareceu perturbar-se muito. Baixou os olhos: ela tem esse jeito de os escorregar pelo chão. Enfiou as mãos muito alvas e finas nos bolsos largos do hábito, apressou-se, sem muita necessidade, em atender á velha milionária de lorgnon, com automóvel parado sob o castanheiro no portão do orfanato, que viera encomendar enxoval para o casamento da neta. Irmã Cibele explicava:

- São aplicações muito bonitas. (Continua)

Escrito por Ray Silveira às 13h18
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"IRMÃ CIBELE E A MENINA" (Continuação)

                     A velha milionária estava mais interessada na toalha de labirinto. Irmã Cibele ainda olhava de lado, disfarçadamente, sentindo os passos de Irmã Teresa, que continuava o seu passeio de inspeção. Irmã Teresa é pesadona, de tornozelos inchados, meias grossas e velhas sandálias, por causa dos joanetes. Toma de manhã o seu remédio para o artritismo, servindo-se do copo de água no filtro, e examina os dedos doloridos e tortos á luz do sol na arcada da área. O que mais lamenta é já não poder dar um ponto de crochê. Não tem tato, energia nos dedos, a agulha cai e ela sente dificuldade em encontrá-la debaixo da cadeira de balanço. Superintende o orfanato. Irmã Cola tem mais a direção do colégio e o cuidado da capela: é muito contrita nos seus votos. Irmã Teresa vigia, superintende?

- Cavilação... muita cavilação.

                     Embirra com a simpatia de Irmã Cibele pela menina, aquele agarradio tolo, que nem é próprio de uma freira. Ainda assim, Irmã Cibele encontra meio de pegar a menina pela mão e correr com ela até o jardim, que é outra paixão de Irmã Cola: tem verdadeira loucura pelo canteiro de rosas e se contraria com as formigas. Ela própria, Irmã Cola, está ali na manhã de domingo e indica da calçada do pátio as plantinhas que ela quer que as duas mudem.

- Lá... perto da roseira

                     As mãos da menina estão sujas de terra. Irmã Cibele tem a barra do hábito umedecida pela grama. Sacode-o na calçada batendo com os pés. As velhas, que balançam sempre as cabeças e se xingam, continuam a aguação dos outros canteiros com os pesados aguadores. Irmã Cola já se afastou, e Irmã Teresa apareceu sob a arcada, no seu jeito meio míope de cerrar as pálpebras por trás dos óculos, como se contemplasse o telheiro em frente, onde os pombos voltam a arrulhar.

                   Vigia.

                    Tudo se deu com a cumplicidade da tarde. O sino da capela já chamara para o terço. As mesmas máquinas de costura fechadas no pavilhão do orfanato, sobras de pano e fios pelo chão, as peças de linho ordenadas sobre a mesa. Irmã Cibele alcançou a menina no corredor do dormitório, depois de ainda consultar pela porta onde há a cortina. Estava muito em cima da menina, e sem palavras que foram articuladas num sopro.

- A menina propriamente não se surpreendeu. Teve receio, porque também olhou para os lados, para a porta da cortina. Tremia. Irmã Cibele também tremia e ofegava, as narinas acesas. Quis ver-lhe os seios, e ela mesma os procurava, as mãos muito ágeis. Perdia a cabeça. Beijou-os, e agora os sugava babando-se e repetindo incoerências:

- Ahnn!

                  A sensação da menina foi de cócegas. Quis encolher-se. A excitação começou a empolgá-la, levantava-a nas pontas dos pés: a língua de Irmã Cibele era ativa e morna, os dentes mordiam com muita delicadeza, quase roíam. Um rumor qualquer? Irmã Cibele recompôs a menina, compôs-se a ela mesma e marchou rápida pelo corredor em direção à capela, os olhos baixos, naquele jeito seu de os escorregar pelo chão.

                   A menina meteu-se pelo dormitório. Está sentada na beira da cama e rói a unha. Os pensamentos são contraditórios. Sente-se como que esvaziada, lassa. Lembra-se distantemente de Dona Madalena, que viu pela última vez na festa de bodas de prata de Irmã Cola. Interfere a figura de Irmã Teresa. Talvez procure sentar-se junto dela com o bastidor. Nada é certo, há incoerências. Persiste a sensação dos dentes nos mamilos, que ela tenta mais uma vez desfazer com a mão, a blusa ainda úmida pela saliva de Irmã Cibele.

 

Digitado e Publicado na Internet

Por Raymundo Silveira

Em 19/03/2006

                

 

                               

 

 

 

Escrito por Ray Silveira às 13h16
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05/03/2006


"Doa a Quem Doer"

® Lílian Maial

Quando eu era bem pequena, mamãe me ensinou a brigar pelo que eu considerasse
correto, pelos meus valores. Ela me instruiu para argumentar, mostrar minhas
idéias de peito aberto, ser verdadeira, autêntica, doesse a quem doesse.
E me dizia isso com um orgulho atávico! Era uma questão de honra ser assim,
ter palavra, ter uma cara só, em qualquer circunstância. E essa frase ecoou
por décadas em meus ouvidos: "doesse a quem doesse". Só que eu nunca poderia
imaginar que doeria a vida toda em mim!

Mamãe me dizia, com um olhar de dona do mundo, que eu havia nascido mulher,
que era a maior dádiva da vida e, como tal, eu seria responsável pela preservação
da espécie, a genitora, a mãe, a vida! E que seria admirada, respeitada
e
protegida, justamente por isso.

Não preciso contar o quanto mamãe era romântica e já possuía um sentimento
feminista feminino de sábia mulher, porém sem as bases de sustentação, que
só muitos anos mais tarde iriam, muito lentamente, sendo fincados na sociedade
e no mundo.

E o tempo foi passando, eu fui crescendo arvorada de mãe do mundo, de inovadora,
de justiceira, tudo isso mesclado com a vontade de cuidar, de curar (um
quê
de bruxa, wicca), e com uma consciência social muito forte, um desejo de
liberdade e igualdade entre as pessoas, independente de raça, credo ou sexo,
e uma alma poética - meu lado frágil e presa fácil.

Acontece que eu cresci mais depressa que o mundo ao meu redor. Eu e algumas
outras mulheres, em todas as partes do planeta. E, como a maioria não teve
uma mãe como a minha, e nem nasceu num país de primeiro mundo, onde esses
direitos todos são mais discutidos e conquistados, cá estou eu em Terra
Brasilis,
tentando traduzir minha língua universal/tupiniquim para o português feminino/plural.


Então, vejamos a equação: mulher + bonita + inteligente + independente =
incômodo => problemas. E os problemas estão por todo lado. Seja no âmbito
profissional, afetivo, educacional, sócio-cultural e, até mesmo, uma competição
desleal da classe feminina, aquela por quem luto, conspirando debaixo dos
panos. Isso sem falar de homens bem minúsculos - porque aprendi que homem
se deveria escrever com h maiúsculo - que não honram a categoria, e morrem
de ciúme da competência, da determinação e da capacidade de persuasão de
certas mulheres, tentando, por tal motivo, subjugar e, quando não conseguem,
denegrir, ofender, agredir, calar a boca de qualquer jeito.

Ah, mamãe, o tal "doa a quem doer" dói...

A gente se sente um ET no meio da multidão. Como é difícil e árdua a tarefa
de levar a noção de liberdade para homens e mulheres tão presos a preconceitos,
tão limitados a sentimentos medíocres, tão algemados a dogmas, tão vinculados
a hipocrisia, a subserviência, a separatismos!
Como seria tudo mais simples, se ao menos se tentasse a convivência pacífica,
com liberdade, com desprendimento, com os mesmos direitos para homens e
mulheres,
para pobres e ricos, para jovens e velhos, para qualquer raça, porque somos
universais, porque fazemos parte da mesma Mãe Natureza, que nos dá vida,
nos nutre, nos ilumina, nos aquece, nos refresca, nos hidrata, nos acalma,
nos aconchega e nos recebe de volta.

Nenhum de nós é imune ao tempo.

Então, por que a disputa, se a linha de chegada é tão negada, tão assustadora
e combatemos tanto, retardamos tanto? Por que disputar chegar na frente,
se não queremos, no fundo, chegar?

Guerras, violência, drogas, escravidão, assédio, submissão, todas essas
coisas,
mesmo aquelas subentendidas, subliminares, levadas na brincadeira, machucam
a terra, ferem a Mãe, afastam o ser humano de sua humanidade. A cada irmão
atingido pela indiferença, pelo descaso, pela inveja, pela palavra, pelo
silêncio, pela dor provocada, mais e mais o humano se distancia da verdade,
do prêmio, da paz.

E, no meio disso tudo, eu incomodo.
Incomodo porque não temo a dor, sou forjada numa têmpera de aço e amor,
de
fé e ceticismo, de valores e ideais muito além do individualismo.
Incomodo porque cutuco as feridas, porque mostro a que vim, porque não me
escondo por trás de falsos profetas, ou falsas comunhões, falsos santos
e
falsos testemunhos.
Incomodo porque não me dobro a elogios, não me vendo por nada, não me traio.

Incomodo porque não quero nada pra mim, mas para a humanidade. E isso incomoda!


Já houve quem quisesse me pintar de sonsa, de interesseira, de vaidosa.
Gastaram
a tinta toda, os refis do universo, e não conseguiram encontrar as minhas
cores.
Basta que me olhem e me vejam. Não precisam inventar. Olhem! Mas olhem com
os olhos nus, não com máscaras que embotam todas as verdades.
E, nesse momento, eu deixarei de incomodar, quando cada um perceber que
deve
procurar seu destino, sua missão, seus desígnios. Quando entenderem e encontrarem,
eu deixarei de incomodar. Sim, porque eu só incomodo aos vazios, aos sem
sentido, aos que vivem para seus umbigos, trajando antolhos, desfiando o
rosário da intriga, da difamação, da incompreensão, da falta absoluta de
generosidade, camuflados por palavras vãs e gestos coreografados para "inglês
ver".

Aos homens e mulheres livres e de fibra, a esses eu não incomodo. Ao leitor
que se identificou, eu não incomodo. Mas certamente incomodarei, e muito,
aos que vestirem a carapuça e sentirem o desconforto da justeza das vestes.

A esses, ofereço a força do recomeçar, a experiência do auto-mergulho e
da
faxina dos velhos mofos do coração.
A esses eu oferto o princípio das coisas, a poesia das manhãs, a beleza
do
sorrir em paz e livre, a delícia do cantar junto com o irmão desconhecido,
a oportunidade de ouvir os cânticos da noite, a alegria de finalmente reconhecer
sua espécie: humana.

Ah, mamãe, o tal "doa a quem doer" dói... dói, mas compensa, gratifica,
faz
delirar!
E mais ainda quando se consegue fazer entender para o outro, quando se identifica
pessoas livres de arrogância, de pé atrás, de armas, de escudos.

Um dia, mãe, deixará de doer, eu sei.
E aí, a Grande Mãe voltará a reinar e a nutrir a civilização, e todos trabalharão
para o bem comum, todos cuidarão dos seus, e no mundo não caberá discriminação,
racismo, distribuição desigual de afeto. E aí, mãe, finalmente seremos iguais.

Escrito por Ray Silveira às 13h28
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11/12/2005


"EU, IMORTAL"

Ray Silveira

 

Quem escreve não sou eu: é um ghost-writer. Não é que não saiba: não posso. Mandei escrever para matar um devaneio. Ou, então, forçá-lo a me matar de vez. Morava sozinho numa cidade do extremo Norte. Fiscal aposentado da Receita. Sovina, não poupava: me privava de consumir. Nenhum medo da morte, mas pavor de me separar do meu dinheiro. Ou sabê-lo usufruído por herdeiros. Uma doença terminal. Pensei em destruir tudo. Faltou-me coragem. Tinha de inventar. Rápido. Preferi um investimento póstumo em mim mesmo. Contratei uma empresa funerária no Sul do país. Comprei um pacote para cremação. O frete de um jatinho incluído.

 

Acabo de ser cremado. Encontro-me ao lado das minhas cinzas. Disseram: vais te arrepender. Sentir muita dor. E estou sentindo. Não a dor da qual me falaram. Não percebo qualquer sensação física. Meu sofrimento é meramente existencial... Que digo? Pós-existencial. Então era só isso? Já não falo da minha avareza doentia, nem de outras ambições. Refiro-me aos sonhos, ideais, expectativas sublimes, nobres aspirações. Estaria tudo reduzido a este montinho de cinzas? E dos grandes desejos: autênticos satélites girando em torno de mim - astro supremo! Ou eu sou o satélite e eles os astros? Ódio. Vingança. Ressentimentos diante das humilhações que eu esperava retaliar. Esfregar na cara do meu humilhador, sem ao menos dignar-me a encará-lo: vê verme desprezível, como fui capaz! Receber nos meus faustosos escritórios o desafeto para devolver na mesma moeda. Ou, então, mostrar-me magnânimo. Não dizer uma palavra sobre a mágoa que me causou, a vergonha infligida, a humilhação perpetrada. Apenas sugerir sutilmente: olha como te devolvo o rebaixamento moral a que me submeteste! Fazê-lo descobrir sozinho; intuir; sentir-se também humilhado. Pela própria consciência. Vê como não foi mesquinho como tu foste. Olha como se compadeceu de ti. Com uma palavra... com o rabisco de uma rubrica, te concede aquilo com que mais sonhavas. E tu lhe negaste uma mísera cortesia, a esmola de um olhar condescendente, uma resposta, embora negativa, a um pedido insignificante.

 

Jamais fui um filantropo. Supondo que tivesse sido... Seria diferente? Nem falo dos prêmios, dos galardões, dos troféus com que os homens se cobrem mutuamente de glórias para ostentar ao mundo vaidade e orgulho. Até sem merecer. Refiro-me aos atos meritórios ensinados e recomendados: bondade, dedicação, benemerência, piedade. E se houvesse feito o inverso de tudo isto? Se tivesse obedecido a Nietzsche, para quem bondade, objetividade, humildade, compaixão para com o próximo, constituem o mérito dos fracos? Atitudes e sentimentos de homens inferiores? Se substituísse a moral cristã em mim incutida desde quando me entendi por gente, pelo orgulho, pelo risco, pela personalidade criadora, pelo amor ao distante... Filosofia segundo, a qual, forte é quem triunfa na vontade de poder. Que diferença haveria agora entre estes dois valores tão extremos, diante deste montículo de poeira? Sempre senti as ambições latejando dentro de mim. Não aludo à cobiça material: esta foi a minha razão de viver. Aspirava também a outros ouros. Avidez que não julgava sequer existir, mas me tornava igualmente ansioso, buliçoso, afanoso. Sôfrego de poder e de prestígio. Desejos soterrados no inconsciente. Pintar ou esculpir uma obra prima. Escrever um livro imortal. Compor uma partitura para sempre. Levar uma vida tão dedicada ao próximo que daqui a mil anos ainda falassem dela e servisse de exemplo. Enfim, algo que sobrevivesse à minha morte. Que perpetuasse a minha memória. Não a minha vaidade, a minha memória. Custa crer que tudo isso se reduz agora a esse sobejo do fogo inservível até para adubo.

 

E quanto às emoções ditas agradáveis? Amor. Todo tipo de amor: materno, filial, platônico... Felicidade. Saúde. Bem-estar. Êxito. Alegria. Ternura. Sexo.  Será possível que tudo isto e muito mais se acham reduzidos a estes farelos de nada cabível em duas mãos? E as chamadas coisas boas da vida? Prêmios de loterias, automóveis, viagens, mansões, casas de campo, de montanha, de praia, festas, Réveillons, Natais, Carnavais, bacanais... Ânsias do dia a dia. Perspectiva constante de melhoria de vida. De novidades. Avidez do diferente, do não usual... De um sempiterno esperar.  Desde a migalha de um aumento salarial, à conquista do mais alto posto. Tantas coisas as pessoas esperam ter que nem comportariam no curto período de uma existência. Ou numa sucessão delas... Correr, competir, trabalhar, estudar.  Alcançar bons empregos, graduações, doutorados, mestrados, pós-doutorados, prestígio político, câmara dos deputados, senado, reinados, ministérios e mistérios. Gozozos, gloriosos, milagrosos... O mais curioso: quem conquista tudo isto nunca se sacia. Mal atinge uma meta, parte pra outra. Porque se farta, se frustra e se furta daquela. Tal qual uma criança quando recebe um brinquedo pelo Natal ou pelo aniversário. O primeiro impacto é uma ventura. Os ideais colimados parecem atingidos. Então, descobre-se: nada era importante. Chega-se mesmo a cogitar: como fui ingênuo por anelar a tão insignificante projeto! Mas nada impede que aquele ideal seja imediatamente substituído por outro, e depois por outro mais e mais outro. E assim sucessivamente, porque aqueles pequenos objetivos e as suas respectivas frustrações ficaram para trás.

 

Escrito por Ray Silveira às 15h10
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(Continuação) 

Quanto a mim, de certo modo, deveria restar um consolo. Bem ou mal estou aqui ao lado das minhas cinzas. Não me aniquilei completamente.  Ficou um símbolo. Uma marca que assinalará o meu nome. Quem sabe, serei uma celebridade. Dependendo de algumas condicionantes poderei até alcançar a imortalidade. Uma glória fantasma, é certo, mas uma glória. No meu caso específico, isto é muito pouco provável. Não impossível. Conheci entidades como eu com tudo para sumir na obscuridade do tempo. Sequer sonhavam possuir qualquer identidade. E aconteceu, de fato. Mas conheço outras que se imortalizaram. Sou capaz de citar dezenas de nomes. Talvez centenas. Muitas eu nem conheço. Cuido que sobrevivi à morte. Alguns de vocês, leitores, também acham que sobreviverão. Ó, como é fácil iludir. Ludibriar estes ínfimos pedaços pulsantes de carne chamados gente. Desesperados por uma esperança, somos constantemente torturados por um desejo vão de perenidade. Especuladores falidos do eterno. Esquecidiças sombras do porvir. Não. Não sobrevivi a nada. Como ninguém sobreviverá. A menos que considerem sobrevivente aquilo que sou agora: mera abstração de um autor obscuro. Insignificante personagem do conto de um escritor ainda mais insignificante do que eu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escrito por Ray Silveira às 15h09
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29/11/2005


"OS VENDEDORES DE HUMILHAÇÕES"

Ray Silveira

A coisa tá feia. Desde que me entendo por gente escuto este refrão. Se bem que quando me entendi por gente o mundo acabava de sair de uma guerra. Então, a coisa tava mais do que feia: tava horripilante. Mas continuou feia. Ouvi que a coisa tava feia quando o Getúlio se matou, quando o Jânio renunciou, quando deram um golpe de estado que durou um quarto de século. A coisa tá feita. Continuei a escutar e a concordar pela vida afora. Já vi venderem água morna, sanduíche de vento, pastel de carne de alma e até vaga em fila do SUSto. Mas a coisa nunca esteve tão feia quanto hoje. Estão vendendo vaidades. Isso mesmo: vaidades. E o pior é que a oferta parece empatar com a procura. Se esta não for maior.

Uma prova disto é que estão vendendo vaidades de uma maneira tão descarada que nem perguntam mais ao consumidor se ele está disposto a comprar. Mandam logo o contrato, faltando só a assinatura. Enfim, como se o negócio já estivesse fechado. A minha oferta de vaidade chegou pelo correio. Recebi o contrato, os boletos de pagamento bancário preenchidos com o devido(?) valor etc. Tão certo já estavam que eu me encontrava ansioso por este produto.

Não nego que sou vaidoso. Todo mundo é, em maior ou menor grau. Quem diz que não é, além de vaidoso é hipócrita. Acontece que o produto que me foi oferecido (oferecido é modo de dizer, que me foi cobrado) em forma de vaidade é, pelo menos para mim, precisamente o contrário. Ou seja, uma enorme humilhação. Será que ainda não adivinharam qual foi a mercadoria que quiseram me empurrar goela abaixo em forma de vaidade? O produto com que tentaram me achacar... Me humilhar? Isso mesmo. A publicação de um livro escrito por mim mesmo. Para ser pago com o meu dinheiro.

Existiria outra forma de humilhar mais humilhante do que essa? Passo dias suando poças de frases pelo corpo inteiro e transpirando gotas de idéias pelo cérebro para mandar imprimir em papel o que escrevo no computador e ainda pagar caro por isto. Será que existe humilhação maior do que esta?

29/11/2005


Escrito por Ray Silveira às 18h36
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15/11/2005


"O Suspense Das Pedras Suspensas"

 

Ray Silveira

 

O deus me confiou a missão de erguer o seu altar. Havia muitas pedras por perto. Mas não eram coloridas com as suas cores prediletas: o azul do mar, ou o amarelo-ouro como o dele. Rochas azuis só existiam em montanhas longínquas. Quase tão remotas quanto o próprio deus. Aceitei o desafio. Afiei a alma na laje da obstinação, e dirigi o corpo errante por um só caminho. As duas coisas mais duras conhecidas eram o bronze e o meu destino. As gerações precedentes jamais cumpririam essa tarefa. Por isso, dou graças ao deus que me deu a vida por ter vivido e servido ao deus que mantém a vida. Numa era menos incompatível com a construção do templo.

 

Ó vós, homens do hoje, que vos orgulhais tanto das vossas catedrais, palácios, castelos, mosteiros e monumentos outros, se soubésseis a grandeza da minha obra e dos meios utilizados para viabilizá-la, dispensariam, a mim, maior respeito. Sem noção alguma da imagem de uma roda, desloquei blocos de cinqüenta toneladas, enfrentando a mesma distância e os mesmos obstáculos existentes entre Constantinopla e Atenas. Cortei-os e encaixei uns nos outros, conhecendo apenas duas ferramentas de metal: uma vontade de ferro e um talento de ouro. Sem sequer sonhar com um guindaste, ergui estes monólitos de cinqüenta mil quilos e os sobrepus harmoniosamente a mais de cinco metros do chão.

 

Por mais que escavem os lugares por onde andei; estudem a minha epopéia com equipamentos ainda por serem inventados, jamais saberão os sábios como fui capaz desta proeza. Nunca descobrirão nos restos ancestrais da minha estirpe, a verdadeira história, a origem, a serventia ou o destino da minha obra. Muitas vezes, a verdadeira grandeza de um homem não pode ser medida pelo valor ou pela finalidade do seu empreendimento, mas pelo esforço despendido para alcançá-lo.

 

Uma borboleta nem sempre consegue, com o seu esforço, levar o pólen até a flor. Mas a meta colimada nunca seria alcançada sem este esforço. É graças a ele que as flores são fertilizadas e desabrocham para a beleza. O mérito maior de qualquer trabalho não consiste no benefício individual, e sim no bem-estar coletivo. A verdadeira felicidade não é a do homem que, de manhã, leva para casa os bolsos repletos da féria acumulada durante uma noitada de bacará. Mas a incomparável sensação de ver o seu esforço se prestando ao bem comum. Dirão que isto é poesia. E é mesmo. Poesia muito maior e mais bela do que a musicalidade de milhões de versos inscritos sobre milhares de côvados de pergaminhos.

 

Então, não importa a finalidade do templo por mim construído. Seria mesmo a casa do Sol: o deus da vida, onde, uma vez por ano, se realizava um ritual cósmico em sua homenagem? Um gerador de energias ocultas, ou uma base de emergência para objetos voadores? Um gigantesco observatório celeste como sugere uma série de alinhamentos astronômicos, precisos como um telescópio moderno?

 

Somente ele, o deus, conhece o segredo. Quando me outorgou essa tarefa não ousei questionar. Nunca me preocupei em saber por quê. Para quê? Que diferença faria na minha sina? A mim só interessa o orgulho de ter cumprido a sua vontade. Se me perguntarem para que serviu o meu sacrifício, primeiro respondo: não sei. Se insistirem, direi: prestou-se para deixar agora alguns homens estupefatos diante do que são capazes a audácia, o engenho e a determinação de outro homem. Independentemente de onde ou quando ele existiu.

 

14/11/2005




 

 

 

Escrito por Ray Silveira às 05h36
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07/11/2005


"TESÃO"

Escrito por Ray Silveira às 00h54
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